29 anos de praia!

Praia. Eu te conheci bem pequena. Tão pequena que para saber como foi a minha primeira vez contigo, tenho que recorrer a fotografias e aos relatos de pais, tios e avós.

Como típica gaúcha, passei meus 17 primeiros verões em Tramandaí, na casa do vô, brincando e brigando com irmão, primos e vizinhos mais velhos e mais novos do que eu. Brincava de esconder, jogava taco, corria na brincadeira de pegar como se estivesse fugindo da polícia, jogava raquete com a parede da garagem, que depois de um tempo ficou toda marcada de bolinhas, dançava na área da frente, virava estrelinha na grama, brincava de bambolê nos fundos, pulava do muro tentando voar, raspava latinhas de refrigerante na pedra do muro até elas virarem copo. Um copo que ninguém usava. Mas era um copo.

Brigava também. Pra ser a primeira a tomar banho, pra ser a última. Brigava quando a luz caía no meio do banho e ninguém ligava de volta de propósito. Brigava por um lugar na rede. Brigava pra decidir as duplas do jogo de cartas. Brigava com os mais novos, sofria com os mais velhos. Brigava para ir no fundo do mar. Com o pai, com o tio, com o vô.

Pesquei tatuíra com saco de batata, fiz castelinho de areia, comi milho, deixei o milho cair na areia e lavei na água do mar pra comer de novo. Fiz buraco na areia até achar água. Tirei foto nos bodes, pôneis e cabritos que passavam. Soltei pipa feita em casa. Levei bronca da mãe e do salva-vidas por não respeitar o mar e o repuxo. Esperei cada virada de ano com os pés na areia, aprendendo todas as simpatias e com muito medo de chegar atrasada e perder os fogos e o tempo de pular as sete ondas.

Tramandaí RS

Com meu irmão em Tramandaí, RS.

Cresci. A praia também. Já podia ir sozinha com as amigas. De ônibus, com a mochila cheia de miojo. Fui assaltada na rodoviária. Não me satisfazia só com o verão. Tinha que ter praia no inverno também. Descobri que Tramandaí, Nova Tramandaí, Imbé, Mariluz, Rainha do Mar e Atlântida não eram as únicas praias do mundo. Descobri que abandonar todos os meus amigos de praia por um feriado ou uma semana em Santa Catarina poderia ser sim muito legal.

Junto com muitos amigos e desconhecidos descobri a Ilha do Mel, a Ferrugem e o Rosa e tudo o que vem com a descoberta desses lugares quando a gente é bem adolescente deslumbrado. Bebe todas, vai pro sol sem protetor pra não parecer certinha, bebe todas, conhece pessoas bem estranhas que te fazem ter uma nova visão de mundo. Bebe todas.

Foi vivendo uma linda história de amor que me apaixonei pela praia do Rosa. Durante vários finais de semana, feriados, verões e invernos, conheci o lugar como a palma da minha mão. Fiz todas as trilhas que levam a todos os lugares, peguei sol, peguei chuva, atolei no barro, morri de frio na beira da praia esperando um surfista sair do mar. Conheci os “locais”, os donos das barracas na praia, os pedreiros, pescadores, costureiras e donas de casa.

A história de amor terminou. Mas o amor pelo Rosa não. Fiquei de ressaca, mais que o mar em setembro. Mudei temporariamente de praia favorita. Escolhi Garopaba pra afogar as minhas mágoas do Rosa. Mas não resolveu.

Resolvi enfrentar o Rosa e a tristeza. Foi então que me permiti viver um Rosa que nunca imaginei ser possível. O melhor do mundo! Me pergunto até hoje como um lugar tão pequeno comporta tantas versões da minha vida e da minha felicidade.

Fiz festa até não poder mais. Até o fígado e o pulmão dizerem “chega Bárbara!”. Curei a ressaca com banho de mar. Dormi na beira da praia. Perdi o caminho de casa. Fiz muita massa ao fruto do mar (leia-se massa com atum), mas também fiz risoto de camarão e comi o salmão perfeito de uma amiga. Fiz muito chimarrão no fim de tarde. Fiz muita lentilha pra noite de ano novo. Fiz muitas torradas em casa para estranhos depois das festas. Dormi em casas estranhas. Acordei me sentindo estranha. Perdi documentos. Perdi dinheiro. Ganhei dinheiro. Fiquei em casa mal assombrada, cheia de baratas. Casas de ciganos. Casas bem frequentadas. Casas pagas. Casas gratuitas. Quis comprar uma casa e continuo querendo. Quis largar tudo e ficar lá pra sempre. E fiquei! Mas não pra sempre. Por um longo período que me pareceu eterno. Mas insuficiente ainda.

Me apaixonei. Me decepcionei. Me apaixonei de novo. Mas nunca mais sofri. Não no Rosa! Por que lá sempre encontrei a cura para todos os meus problemas. Até mesmo para os problemas que nem sabia que tinha.

Frequentei outras praias: Uruguai, Floripa, Bahia, São Paulo. Todas lindas. Voltaria em cada uma delas. Cada uma não. Menos Porto Seguro. Sorry.

Todas essas trips contribuíram para fortalecer meu amor pelas praias e por toda paz que sinto quando fico cara-a-cara com o mar. Mas nenhuma praia tomou o lugar que o Rosa tem no meu coração e na minha vida.

O lugar que conhece o meu melhor e o meu pior. O lugar que há onze anos me recebe de braços abertos. Sem perguntar por que vim e nem porque quero ficar. Sem perguntar por que fui embora e nem porque demorei a voltar.

Completando 29 anos hoje, consigo ver muito claro que, muito da pessoa que sou, é herança de todas as praias que vivi, amei e senti saudades. Desde as brincadeiras da infância até a última noite de ano novo.

Praia do Rosa

Chimas no Rosa

Foi o meu amor pela praia que me fez criar o blog Vai pra Praia e dedicar meus melhores pensamentos e intenções para ele, para mim e para vocês que leem o blog. Foi o jeito que encontrei de expressar meus sentimentos, me comunicar melhor com o mundo e sentir menos saudades da praia enquanto não viro uma nativa de vez.

Hoje, no meu aniversário, divido com vocês praieiros toda minha felicidade e realização ao concluir que meus 29 anos estão cheios de areia embaixo dos sapatos, ferrugens causadas pela maresia, cicatrizes adquiridas em trilhas e tombos bizarros e pintinhas de sol espalhadas pelo rosto. Hoje contabilizo 203 ondas puladas e com vontade de pular muitas outras ainda. Todas de sete em sete.

Que venham os próximos anos! Que venham as próximas praias!

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4 pensamentos sobre “29 anos de praia!

  1. Ai praia é tudo… não posso negar meu amor pelo nordeste…Ceará e cia.
    Por mim vivia com os pés na areia. E meu sonho é que pudesse pegar sol e viver bronzeada sempre. But… o sol não é tão querido assim… adorei tua história…
    Feliz 29 anos… não fui te dar um beijo e os parabéns…:(
    Adoro teu bloh :)

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