Vamos viver de amor, por favor!

Dia desses, viajando na minha bolha e observando um casal que morava em uma van na beira da praia, parei para pensar que loucura de vida era aquela.

Os dois descalços, com os cabelos emaranhados de sal, sol, areia, parafina e sei lá mais o que, uma bacia d’água no chão ao lado da van para “lavar” a louça do almoço, umas toalhas desgraçadas secando na porta aberta e enferrujada daquela van que, com tanta coisa que tinha dentro, ainda servia de morada para os dois.

Eles pareciam super concentrados em suas tarefas “do lar”, tentando deixar tudo dentro de algo que chamavam de organização. Fiquei ali viajando, olhando pra eles e pensando que  vida insana era aquela. Foi quando, no meio da arrumação, eles pararam tudo o que estavam fazendo, se abraçaram e beijaram e ficaram, por um longo tempo, olhando a série que entrava no canto esquerdo da praia. O sol iluminava de leve o rosto deles e ninguém dizia nada. Um silencio profundo  que explicava mais do que as palavras poderiam.

Vendo aquela cena, quem se sentiu errada, fora do contexto e louca fui eu.

Saí da bolha do casal e voltei pra minha, pensando que eu tinha que voltar pra casa, pendurar as toalhas felpudas no varal, botar a louça na máquina, tomar uma banho quente de chuveiro, correr atrasada para o trabalho, achar uma vaga para estacionar, brigar com as pessoas que não trabalham direito, explicar para o meu chefe porque as pessoas não trabalham direito, dedicar toda a minha simpatia aos clientes, toda a minha paciência ao meu chefe, responder aos e-mails atrasados e deletar os muito atrasados, trabalhar horas extras, correr para a academia, levantar o máximo de quilos que puder, correr o mais rápido que puder, fazer compras no supermercado, voltar pra casa e encontrar uma brecha na agenda para atravessar a rua e  ficar na beira da praia de novo.

Para tudo! Eu também quero viver de amor!

Foi quando me dei conta que, não só eu, como muita gente corre desesperado e faz da vida uma maratona, sendo que o que se quer alcançar, no fundo, só exige um pouquinho do nosso tempo livre. Mas o que me intriga mesmo é como se conserta isso tudo? Será que a gente deve simplesmente apertar um stop e ficar ali, em uma van na beira da praia esperando tudo acontecer? E enquanto não acontece a gente faz o que? E se nada acontecer? E quando a gente tiver uma van e um amor, qual vai ser o próximo passo? Ou vai ver, o dia que a gente tiver um amor e uma van, não vamos querer saber de um próximo passo. Será? Não sei.

O fato é que, no fundo, as pessoas menos ambiciosas são as mais corajosas. Fácil é correr atrás da vida, bater metas, seguir processos e uma rotina maluca. Para viver de amor e só, é preciso calma, coragem, muita coragem para não se importar em lavar a louça na bacia ou dormir amassado no meio de um monte de malas e pranchas. É preciso relaxar o suficiente para que o amor te ache despercebido. Assim, como com que não quer nada, na beira da praia, em um fim de tarde ao pôr do sol.

E aí? Quem se arrisca?

kombi-post

 

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